Então é Natal! E o ano surreal de 2020 chega ao fim. O que me ocorre agora é que precisamos ser gratos por estarmos vivos e capazes. O tormento certamente ainda não chegou ao fim, ainda vamos ter que caminhar um bocado ano adentro até encontrarmos a normalidade que perdemos lá no início deste período impensável. Ou até precisaremos nos convencer de que a normalidade agora é outra e aprender a lidar com ela. Não importa o que virá, agora, nesse instante, precisamos agradecer.
Imagino que não tenha sido fácil para ninguém que esteja minimamente conectado ao que acontece no planeta. Talvez em alguns rincões, onde o tempo parou há séculos e a vida é sempre igual, viva alguém que nem sequer se deu conta da tragédia que se abateu sobre nós, alguma ilha perdida ou algum recôndito subterrâneo. Fora isso, fomos todos assolados pelo medo e pela impossibilidade de controle.
Foi preciso nos adaptar. Tivemos que exercitar a resiliência e despertar a vida que estava dentro de cada um de nós. Mesmo sob o manto escuro da doença e do desconforto do confinamento, muitas coisas aconteceram. Pessoas se encontraram, se perderam, crianças nasceram, resgatamos sentimentos adormecidos, talentos escondidos, desejos e desistências. Também aconteceram fatos que eram previsíveis, nem tudo é sensível às mudanças ou aos chamados. Fato é que a vida não parou e quem soube se adaptar sofreu menos.
A Pandemia não chegou como castigo ou lição, mas como consequência. O mundo que construímos, capitalista, desigual, conectado, usurpador dos recursos naturais, deu origem a ela e aos seus desdobramentos macabros. Houve manipulação de dados, houve incongruência de discursos, houve desrespeito agudo ao ser humano. A vida perdeu pontos diante do deus dinheiro, ao qual a maioria se curva.
Todavia nem somente de tragédias foram feitos nossos dias de dois mil e vinte. Tivemos solidariedade, compaixão, esforço, luta, reflexão, arte, cultura, aprendizado; enfim tivemos alento. Infelizmente não acredito mais que quando tudo passar iremos sair transformados como espécie, mas acredito nas transformações individuais daqueles que foram sensíveis o suficiente para refletir sobre si mesmo e seu entorno. Minha aposta é na somatória dessas mudanças. Insisto em acreditar em um mundo menos cruel.
Que agora, ao fecharmos as portas de 2020, possamos agradecer por estarmos aqui para contar essa história. História essa que ainda pode ter um final mais feliz, caso um despertar de consciência coletiva possa encontrar mais corações abertos. Oxalá!
Feliz Natal! Que venha 2021!
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