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Acelerador

 



Há alguns anos escrevi um texto, chamado pé no freio, no qual debatia a pressa insana que nos tomava e  era a causa de tantos transtornos observados, até mesmo entre crianças e adolescentes. Volto ao tema hoje, quando estamos instalados em uma pandemia há 15 meses, e mesmo assim, ou até por isso, estamos em sofrimento pelo excesso de demandas.

Atualizando meu celular, me deparei com uma nova função do WhatsApp, o acelerador de áudios. É possível acelerar as falas em até duas vezes, e ouvir nossos interlocutores como num disco antigo de 78 rotações (os da minha geração irão se recordar) e assim economizarmos alguns segundos do dia. É engraçado, porém, por trás disso está uma sociedade seriamente adoecida e adoecedora.

Adoecida porque ansiosa num grau altíssimo e incapaz de ouvir um áudio ou até assistir a um filme, que a princípio seria lazer, em velocidade normal. É preciso acelerar, para colocar mais coisas dentro de um único dia. Perdemos a paciência, a espera, a fruição. Perdemos a capacidade de gestar, aguardar o tempo do outro, respeitar o nosso próprio ritmo, apreciar. Queremos o resultado, dispensamos o processo.

Só que estamos nos esquecendo que os processos são importantes e necessários. Quem quer colher, precisa plantar, adubar, regar, cuidar, acompanhar e tudo isso demanda tempo e dedicação. Se observarmos a natureza, poderemos constatar que absolutamente tudo faz parte de um ciclo. Há séculos já foi descartada, cientificamente, o fenômeno de geração espontânea.

Ciclos devem ser respeitados. Cada um de nossos dias é um ciclo que vivenciamos e é importante que dentro desse pequeno ciclo, seja contemplado produção e descanso. Nesse mundo remoto no qual vivemos, podemos cair na armadilha de pensar que, por não sairmos de casa, podemos trabalhar sem cessar, fazer sem respirar. Corremos o risco de nos colocarmos disponíveis o tempo todo, afinal estamos em casa mesmo, né? E nossos empregadores sabem e se aproveitam disso.

Sinto essa ansiedade em mim. Às vezes acumulo tantas atividades durante um dia, que não consigo dormir bem, tamanha a aceleração. As atividades virtuais são necessárias nesse momento, em alguns casos a única opção possível, mas são perigosas por deslocar nossa percepção de tempo. É urgente refletir sobre limites, nossos e dos outros. É hora de pensar a quem interessa essa sociedade à mil por hora. Podem apostar que alguém está lucrando, e muito, com isso.

Já estamos há muito tempo apartados, distanciados de nossos grupos de convivência em decorrência da pandemia e da insanidade coletiva em lidar com ela. Já estamos feridos demais com o luto que deveria impactar a todos. Já estamos muito negligenciados como cidadãos nesse país. Nos demos direito ao tempo, seja para ouvir com paciência a voz de quem fala conosco por afeto ou trabalho; seja para colocar a nossa saúde mental como prioridade.

 

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