Hoje um livro atravessou minhas lembranças e acendeu em mim memórias esquecidas. O livro é o e-book Aulas de Corte e Costura, de Roseana Murray, poeta que esteve conosco na Flicar em Casa e encantou a todos. As lembranças são de um tempo remoto, aonde as roupas eram feitas sob medida por costureiras que marcaram minha infância e juventude.
Não consigo mais precisar a periodicidade, mas em minha casa sempre ia uma costureira, a Hélia, que passava o dia todo arrumando peças que precisavam de ajustes ou pequenos consertos e fazendo outras para minha mãe e para nós. Lembro do barulho incessante da máquina de costura, das conversas e risadas. Se sobrava tempo, com os retalhos ela fazia roupas para minha boneca Susi, momento que aguardava durante todo o dia.
Herança de minha avó, na minha casa tinha (ainda está lá) uma máquina de costura antiga, Singer, manual e ficava dentro de um móvel próprio. Quando pequena, tocava a manivela e fingia estar dirigindo. Já adolescente, me aventurava em usá-la para inventar peças de roupa, costurar almofadas para a cama. Lembro que de vez em quando minha mãe a abria e arrumava uma ou outra peça de roupa, costurava cortinas, toalhas de mesa ou colchas para a casa. Em alguns dias tudo dava certo e o objetivo era alcançado, porém em outros, quando a máquina teimava em resistir às poucas habilidades dela, a sessão era encerrada com um sonoro “eu odeio costurar”.
Quando éramos adolescentes, para vestir quatro filhas, comprar os tecidos no Varejão das fábricas e mandar fazer os modelos escolhidos, era a opção. Muitas de nossas roupas eram feitas em Carmo da Mata, nas férias ou feriados prolongados, pela Albertina ou pela Marisa. Dividíamos o tempo entre as brincadeiras, os passeios e as idas intermináveis à costureira para fazer as provas necessárias. Calças, camisas, vestidos, que enchiam as malas de volta à Belo Horizonte. Claro que naquela época preferíamos comprar roupas da moda em lojas, mas aquelas eram peças exclusivas, sempre com um detalhe ou enfeite a mais que os modelos das revistas.
Ao marcar a data de meu casamento, ganhei o tecido do vestido de noiva do meu avô e quem fez foi a Marisa, costureira de mão cheia, sempre alegre e boa de prosa. Quanto cuidado e delicadeza. Foram muitas provas até que ficasse do jeito que eu queria, mangas bufantes como era moda na época, de cetim e renda na cor marfim. Depois de pronto, eu mesma rebordei a gola, os punhos e o corpete com pérolas, num exercício de impregnar naquele tecido, a esperança de felicidade.
Quando tive meus dois primeiros filhos, ainda usava fraldas de pano que comprávamos em caixas e vinham sem bainha. Minha sogra embainhou todas elas e costurou muitas roupinhas para eles, além de cerzir peças puídas e avariadas pelo tempo ou durante as brincadeiras.
Não levo muito jeito para costura, apesar de achar que é uma arte transformar pedaços de tecidos em roupas, que carregam além de linhas e botões, uma boa porção de sentimento. Antigamente a costura fazia parte das prendas que as mulheres deviam aprender para cuidar de suas famílias. Máquinas de costura estavam sempre presentes nas casas de nossas mães, avós e tias, muitas vezes salvando o orçamento da casa.
Sigo, porém, costurando palavras, ideias e sonhos, na esperança de cobrir o mundo com uma colcha de esperança.
O livro da Roseana Murray está disponível gratuitamente aqui: http://roseanamurray.com/site/index.php/2021/07/01/e-book-aulas-de-corte-e-costura-roseana-murray-e-juliane-carvalho/

...costurar é "uma arte transformar pedaços de tecidos em roupas, que carregam além de linhas e botões, uma boa porção de sentimento."
ResponderExcluirAdorei esse pensamento.
Gosto muito da maneira como escreves.
Abraço.
Ilone Clezar