Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de julho, 2008

Telefone???

Ela deu uma escapadinha rápida e silenciosa do trabalho para ir a C&A. Foi comprar aquele biquíni que era a sua cara e estava com um preço imperdível. Seriam só uns vinte minutinhos, ninguém iria dar por sua falta na repartição. Entrou na loja que logicamente estava lotada, era o último dia da liquidação. Ela pegou seu biquíni e deu um jeitinho de furar a fila do provador. Experimentou rapidinho o biquíni que caiu como uma luva! Correu para a fila do caixa apressada, mas feliz com o sucesso de sua fuga. Havia umas cinco pessoas na sua frente, todas com pilhas de peças e pouco tempo disponível, tal como ela. A moça do caixa não tinha pressa nenhuma, pois acabara de chegar e ficaria naquela loucura até a noite. O tempo parecia estar correndo do Schumacher e a fila andava calmamente de bicicleta numa tarde de domingo. Entre uma olhadela e outra no relógio, pensou mil vezes em desistir de abafar no clube domingo. Logo este fim de semana que o Roberto vai ao clube! A r...

Adeus e Bença!!

Romualda, Rumalda, Mana, Dinha Mada, Dinha, Tia Romualda, Tia Mamada, Danda, Titia! As formas de lhe chamar foram muitas, assim como os chamados que ouviu e atendeu! Abdicou de sua própria história para cuidar dos seus! Sua família, seu tesouro! Do seu jeito meio bravo, meio seco; às vezes manso, às vezes rude, mas sempre terno, deixou doces lembranças na memória de todos nós, que hoje sentimos sua falta. Com um agrado (uma quitanda, uma macarronada no domingo, um doce de laranja com rapadura, um mingau de fubá para curar enjôo, um caminho de mesa de crochê para o enxoval, uma cama bem arrumada cheia de cobertor...) ou mesmo com uma reprimenda e uma cara fechada, foi o esteio da família desde que se entendeu por gente. Foi a primeiro-ministro que ditava as normas de comportamento, a guardiã das tradições de um tempo que lembrava com saudades e a memória de inúmeras histórias que agora se calam para sempre. Foi uma filha dedicada, uma irmã incansável e uma tia querida de três gerações ...

Meninas-mães!

Pobres meninas espertas, ousadas, descoladas, rebeldes. Muito cedo se entregam à vida. Agem com uma urgência insana. Atropelam o tempo, mergulham na inconsequência sentindo-se poderosas, protegidas, inatingíveis por qualquer mal. Não ouvem conselhos, são imunes a apelos ou informações. Elas se bastam; suas histórias serão diferentes, seus amores especiais. Pobres meninas assustadas, revoltadas, inconformadas. Sentem-se perdidas, com medo, sozinhas. Carregam no ventre uma vida pulsando, crescendo, alheia aos problemas. Descobrem que não eram tão protegidas e nem seus amores tão especiais. Sofrem e fazem sofrer os que estão ao seu redor. Vivem um pesadelo, experimentam o desespero, às vezes o abandono e o preconceito. Perderam, no mínimo, a leveza da adolescência. A alegria fácil dá lugar a preocupações de gente grande. Pobres meninas grávidas. Desfilam suas barrigas, incapazes ainda de dimensionar sua realidade. Por um momento se tornam o centro das atenções. As amigas adu...

Metamorfose Eleitoral

É incrível a transformação que candidatos a qualquer cargo eletivo sofrem na época das eleições. Acontece em qualquer lugar, mas em cidades pequenas fica mais fácil de observarmos essa metamorfose eleitoral. Tornam-se extremamente simpáticos e demonstram um interesse na vida do próximo digno da Madre Teresa de Calcutá. Passam por nós na rua um milhão de vezes durante o ano e não nos enxerga, mas na época das eleições se tornam nosso amigo de infância.Exibem um sorriso largo nos lábios a qualquer hora do dia ou da noite. Em qualquer oportunidade querem saber de sua vida, seus problemas, sua família e por último de sua intenção de voto! Devem todos sofrer de bursite ao final da campanha, pois passam grande parte do tempo, com os braços erguidos, acenando vigorosamente para seus prováveis eleitores onde quer que os vejam. Falam bonito e sempre tem palavras oportunas a qualquer situação e a qualquer ambiente.Distribuem apertos de mãos e abraços calorosos a Deus e a todo mundo. Tornam-se ...

Branco total

Clarice tem um problema com as palavras. Não no trabalho onde está sempre atenta e esbanja competência, mas é só se sentir mais a vontade que o troca-troca começa. Ela já ficou volátil e volúvel num jogo de baralho, abriu a janela para “ariar” o ar, comprou para o marido um lass faire ao invés de nécessaire, pendurou no pescoço um pingente de mármore e não de marfim, e outras tantas trocas que se perde a conta. Dia desses Clarice saiu de uma reunião estressante no trabalho e resolveu passar em uma agência bancária para pedir umas informações. Infeliz ideia. Logo que chegou à agência ficou presa na porta giratória. A cada tentativa a porta travava. Depois de despejar quase tudo da bolsa, tirar o cinto e o celular, descobriu que era o fecho de sua bolsa que disparava o sensor. Entrou. Recompôs-se da raiva sofrida e se dirigiu ao balcão de informações: _ Por favor, com quem eu falo a respeito de guardar dinheiro? _ A senhora deseja abrir uma conta corrente? _ Nã...

Com Raízes.

Estava ele sentado sob a sombra daquela velha árvore, pensando na vida como sempre fazia ao entardecer, quando num passe de mágica, uma ventania assustadora se instalou. Não era um furacão, ou um ciclone, mas era um vento de grandes proporções. Ali, do alto da colina, ele pôde observar o estrago causado no vilarejo logo abaixo. Casas destelhadas, postes caindo, pequenas árvores se partindo como se fossem de isopor. As pessoas correndo de um lado para o outro, procurando algum lugar seguro para se abrigarem e ele ali, paralisado diante do caos que se abatera no lugar. O vento assim como veio se foi, deixando um rastro de destruição e prejuízos, mas a velha árvore estava ali, inteira. Tinha alguns pequenos galhos quebrados e muitas de suas folhas foram lançadas longe, mas sua estrutura estava intacta; o forte vento não foi capaz de abalar a sua essência e ela ainda foi capaz de lhe oferecer abrigo e protegê-lo do perigo. Raul desceu a colina correndo e se juntou aos outros ...

Francisco!!

Ganhei um lindo presente! O pequeno Francisco é um pouquinho meu. Claro que ia amá-lo independente disso, mas agora o afeto é nomeado, sou sua madrinha (mãe em Deus, como faz questão a minha), e ele é o mais novo homem da minha vida! Esse presente vem coroar de alegria e emoção uma preciosa amizade que sinto por sua mãe, numa história de afeto que começou a ser escrita há muitos anos, por nossas mães, que sempre cultivaram um carinho mútuo mais que especial! Em outros tempos, em outras páginas, uma amizade entre adolescentes descobrindo a vida se fortaleceu e resistiu a todas as diferenças de percurso! Talvez o destino ou somente a delicadeza da vida uniu esses sentimentos e costurou nossas vidas com laços fortes. Laços de amizade! Laços de família! Laços incondicionais e hereditários! Laços de amor!! Dos dourados tempos de namoro, às grandes aflições e dores! Dos grandes acontecimentos, aos pequenos feitos do cotidiano! De quando éramos apenas dois jovens casais, à chegada de cada um ...

Provas

Gosto de observar meus alunos fazendo provas. Cada um reage de uma forma, tem aqueles que se debruçam sobre o papel impedindo qualquer espiadela dos que querem um auxílio. Tem aqueles malandros que não estudam nada e se dão bem às custas dos outros; e há aqueles medianos, que não são bons o bastante para fazerem sozinhos sempre nem tão ruins que dependam só dos colegas. Lembro-me bem de minhas provas de matemática no colégio, a pedra do meu sapato. Do alto de minha sabedoria, aos 14 anos, dava uma lida no caderno e julgava saber resolver todas aquelas equações e problemas, com todas as suas variantes. Quando recebia a dita cuja, tinha tremedeira, suava frio, descabelava, chorava e me dava mal, invariavelmente. Fui uma aluna medíocre em matemática. Mas as provas escolares não servem de termômetro para as provas da vida. Minha sorte. Nem sempre os primeiros da classe serão os primeiros na vida, como os medíocres na escola não estão fadados a passarem a vida na mediocri...