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Mostrando postagens de agosto, 2020

Poetrix

  NAVALHAS Uns dias são lâminas Fio afiado em nossas gargantas Ameaçam e roubam esperança. AMANHECENDO  Não espero o dia nascer lindo.  Céu azul sempre vai bem,  Em dias nublados se ama também! RUMINO   A lógica caótica, Escalafobética. Maléfica lástima

Estrada

  O vento sopra e despenteia os pensamentos Ando em círculos e a casa se apequena Oprimindo as urgências de novos aromas. Olho em volta e não reconheço os espaços Que outrora calhavam em mim. Há muito parti, daquela que fui, Sigo sendo em cada instante. Não há ponto de chegada, Só vejo estrada!

Lullaby

  Fecho os olhos e a música me embala, Envolve minh'alma e acalenta sonhos Que não alcanço, ao despertar. Pelas notas e harmonias Descanso das esperas da lida, Me refaço e aguardo um novo dia. As canções sempre me lembram, Das belezas, tão profundas e abstratas Que não cabem nas palavras!

Lembranças doces

  Lembranças! Quem não as têm? Boas e ruins fazem parte do que somos. Mas, em tempos de distanciamento, elas parecem mais vivas e acalmam nossas saudades e vontades! E cultivar, principalmente as boas recordações, pode ser uma boa estratégia para serenar nossos corações apreensivos com tanta incerteza. Claro que de incertezas, nossas vidas vivem cheias, aliás, ouso afirmar que, é só o que temos. Porém, quando a vida é assaltada por inusitados acontecimentos, e nos coloca em risco, um conforto é nos agarrar às vivências que nos fizeram felizes. Pois bem, hoje ouvi um podcast que me fez entrar em um túnel do tempo e relembrar momentos idos de infância e adolescência. Ouvindo o áudio da escritora Cris Guerra e suas irmãs, nesse podcast que ela criou para celebrar os seus 50 anos, me veio à memória muitas passagens com as minhas, que contam um pouco de nossa origem e do modo de vida naquele tempo de infância. E além disso, tomei consciência do quanto essas vivências nos marcam, a ponto...

Pouso

  Dei pra observar os passarinhos Suas vozes, seus costumes, seus pousos. Em meu quintal, visitam-me muitos De muitos tamanhos e qualidades Vem em busca de comida, e em troca Semeiam uma ou outra coisa. Um pé de pimenta, goiabeiras, Tomates cereja. Alguns fizeram casa no telhado, e Das frestas sempre caem restos de ninhos E à tardinha, depois de voejarem por aí, Voltam pro sono dos justos. Daqui, onde estou nesse instante, Sigo pensando... Se estou num breve pouso Espalhando umas sementes, Ou se já refiz o ninho!    

Multiversos

                                          Pra onde vão as saudades que não deixamos de sentir? Nostalgias sem probabilidades de redenção? A morte, lâmina fria, a decepar histórias, Impõe ponto final ao enredo, E abre parênteses vazios impassíveis, inconclusos. Mortes várias, de gentes, de desejos, de histórias. Gosto de acreditar nos multiversos Mil versões de nós e de todos. A cada escolha, uma não escolha ganha vida eterna e segue A chave para acessá-las hei de saber de algum louco ou poeta ou profeta. Nessa ultra dimensão abstrata e etérea, Todas as partículas vivem infinitamente.

Nenhures

                                               Vivo a mastigar as palavras Ruminando teorias e ensinamentos, e Buscando os retalhos que caibam No quebra-cabeças que faz A vida parecer menos diminuta. Ideias de muitas formas e tamanhos Me assaltam e me fazem companhia Farfalhando as saias dos meus pensamentos. Creio em muitas, duvido de todas, Não caibo inteira nenhures. O universo é tão vasto, infinito E essa imagem sempre me assombrou. Por tantas vezes, nada faz sentido, e Mergulho em um abismo insano Agarrando em parcos nacos de alegria Para não sucumbir ao oco da existência. Mas há momentos tão plenos, Tão imensamente preenchidos de tudo Que dispensam qualquer significado. Apenas sinto-os, E os guardo no baú das respostas. Entre o saber e o sentir, A vida passa depressa demais.

Inflorescências

                                                      Lilazes na janela ou nos buquês das noivas Esperam felicidades Orquídeas enfeitam os troncos mortos E esquecidos. Girassóis crescem nos vasos de plástico Plantados para alegrar os olhos confinados. Tulipas colorem invernos distantes e papoulas Oferecem o ópio que entorpece as almas fugidias. Lavandas cultivam perfumes alegres Crisântemos adornam a morte e a dor Rosas convidam o amor. Gosto mesmo das mimosas, sem nobreza Sem destinos, sem maiores pretensões. Apenas belas.  

Despertar

                                                    Acordo.  Despertar é de outra ordem Olhos abertos Não garantem que vivo Quero o escancarar de almas Retirar todas as vendas que impedem Que o mundo seja, ao menos, Menos cruel! Quero sempre olhos que veem Que alcançam e atravessam A obviedade do mundo. Quero todo dia, a coragem de enxergar!