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Mostrando postagens de julho, 2020

O que quero dizer

                            Há muitas coisas a dizer E percebi que não o fazer Além de, por vezes, causar severas intoxicações Priva-nos dos fluxos naturais da vida. Há muitas coisas a dizer E decidi que queria dizê-las todas Causem elas o que causarem. Entretanto, não é tão simples falar somente. Muitas coisas carecem de ruminação e espera Outras aguardam iscas, Fagulhas que ateiem o fogo na brasa mansa. Outras ainda, são vozes natimortas Só a nós importa.

Contabilidade

             Já contabilizo alguns fios brancos, No cabelo que teimo em manter intocado, Mas ainda suspiro e aprendo todos os dias. Já chorei por erros que não cometi E me fizeram acreditar que não podia ser quem sou Mas ainda sonho e desejo pouso. Já amei muito e acreditei que tudo estava pronto Me esquecendo que a vida é moinho e tritura aqueles que não se entregam Mas ainda acredito em encontros felizes. Já pari filhos pensando me salvarem da solidão Me esquecendo que teria que entregá-los às suas próprias vidas Mas aprendi a amá-los libertos. Já acreditei em promessas líquidas e distantes Encarando as fragilidades dos laços sem alma Mas me desvencilhei de armadilhas tão óbvias. Já pensei não ter tempo de viver novas histórias E me julguei adormecida para assuntos do coração Mas viver sem paixões, como disse Graciliano, Eu também acho medonho!

Fio vermelho

Na fina tessitura da trama As linhas se entrelaçam em intrépidas geometrias. Urdindo as fazendas existenciais. Nas quais, submergimos entregues, Aos imponderáveis atalhos e caminhos. Uma lenda vinda do oriente, diz: Almas destinadas a se encontrarem São ligadas por fios invisíveis e inquebrantáveis, Que se cruzarão em algum ponto do tecido da vida. Gosto de acreditar nisso.  Ceticismo e fé juntam as pontas que me desenham. Crer em ordens imaginadas permite que abandonemos, vez em quando, os remos. Esquecendo por instantes a precisão das bússolas e, Entregando nas mãos do destino os espantos. Pitadas de crenças e magias ocultas transcendem o pragmatismo do cotidiano, pois, nalguns momentos Há que se enfeitar de flores todos os vasos Pra, em cores, decompor a existência.

Promessa

                                        O início da noite me interpela  E me atira em íntimo mergulho Enquanto as cores amortecem E a noite cobre a tarde Que guarda todas as horas do dia. Esse momento traz sempre agudos sentidos. Hoje senti um misto de acolhimento e receio, Nada agora, nesse átimo de segundo que jaz, me desarvora. Mas também nada há de concreto no horizonte Onde possa repousar as (in) certezas. Olho em volta, a casa está calma e em paz. Não há barulho, não há dor, não há euforia. Tudo de uma placidez inquietante. Olho pra dentro, a alma está calma e em paz. Barulho sempre há, mesmo sutil ou domado Não há dor e a euforia espera. Te ouço e te sinto perto. Sua presença me ronda como uma promessa.      

Achados

Fazendo uma arrumação em meus arquivos de textos antigos, encontrei um artigo que fiz em 2006, quando da epidemia de gripe aviária, que fez o mundo temer uma avassaladora pandemia gripal. Ela chegou, com outro nome, com sintomas um pouco diferentes, mas igualmente temerária e letal. Publico aqui o texto achado. Como um exercício de memória, pra não esquecermos que outras ameaças virão, como sempre vieram, e que precisamos, de fato, revermos nosso papel no planeta. Tempestade anunciada  (2006) Alerta Geral! A gripe vem aí! Uma tragédia de dimensões planetárias, já tem data marcada para acontecer! E a nós, vítimas em potencial, resta apenas esperar pelo inexorável! Talvez possamos tirar algumas lições desta tragédia anunciada: o homem, apesar de todas as tecnologias que inventou, é impotente diante da força do acaso e das artimanhas da natureza. Basta que dois vírus, duas partículas inanimadas, passíveis de manipulação e subjugada pela nossa prepotência, se encontrem e troquem materi...

Receituário

                                                  Do doutor pro paciente, Queixoso da luta da vida. Para todos os momentos Deixo um receituário. Não! Não ofereço garantias É tratamento experimental E ora sim, ora também Comprovo eficácia. Te prescrevo poesia, Ao menos uma vez por dia! Previne amargura precoce E abranda tristeza tardia!

Catadores de Letrinhas

Aviso aos navegantes Incautos e distraídos. Cuidado com os poetas!! Afetos viram versos, Tristezas ganham rimas Amores são poesia! "Qualquer palavra ganha forma, Ganha asa, vira brasa." Catadores de letrinhas, Por entre o mel e o fel Recolhem dizeres, do vento ou ao pé do ouvido. Embornal cheio, transbordam poemas Lançando ao mar da vida, suas marcas Atiram à própria sorte, suas crias Mas anseiam pelo abrigo Daqueles de corações abertos.    

Quereres

Não quero ficar velha Com olhos presos pra dentro Em redemoinhos infantes Ou visões escarlates de vidas passadas. Ensimesmada sempre fui e sou, e creio continuar assim Porém sigo os barulhos do vento, do céu que se pinta de magentas e ocres. Sigo estrelas em forma de gentes, sinto... Ouço, cheiro, apalpo, e deixo o mundo entrar em mim Sinto com fúria as texturas, os sabores, consistências. Na minha viagem interna sempre sento na janela, e Observo cada movimento Careço do encontro! Tenho medo da escuridão Do silêncio profundo. Da ausência de troca.

Mosaico

                                      Com a ‘poeira dos momentos’ Que o tempo e o vento trazem Crio o mosaico que sou. Feito de cacos de dor, mas Unido por júbilos mágicos Que colho aqui e ali. Dessas felicidades sem hora Pavimento o caminho que trilho. As pautas da vida se impõem! Sossego da busca incessante, e Epifanias me atravessam! A bússola vislumbra destinos. Aconchego as respostas sopradas Guardo-as no mais fundo da alma. Entendo tudo e aguardo o tempo da primavera!                    

Quarteto Fantástico

                                               Inaugurei uma geração de mulheres na família. Sou a mais velha de quatro irmãs. Um mundo feminino que me moldou e onde primeiro aprendi sentimentos de sororidade. Um universo de vivências comuns, mas individuais, que me ensinou a seguir acolhendo e tocando os espaços alheios com delicadeza e respeito (nem sempre com serenidade, admito), mesmo que tenhamos tido momentos de tensão, o que é inevitável. Irmãos são testemunhas de nossa própria história e manter esse afeto intocado na vida adulta, demanda exercícios de alteridade e empatia, para além da consanguinidade. Seguimos unidas, acolhedoras umas das outras, formando uma rede protetiva e um colo incondicional. Uma benção! Com duas delas, dividi amor e ódio enquanto crescíamos e buscávamos a nossa individualidade em meio a crises adolescentes, descobertas do mundo, assombr...

Você sabe com quem está falando?

                        Você sabe com quem está falando? Já ouviram algum cidadão falando isso em alguma situação? Eu já e não foi somente na TV. Patético, ridículo e lamentavelmente comum. Por aqui, no Brasil, em nossa sociedade aristocrática e escravocrata em essência, vira e mexe temos notícias dessas infames carteiradas. Os protagonistas de tais cenas são sempre os ‘cidadãos de bem’ que pensam ter o rei na barriga. Que se autodeclaram acima do bem e do mal e ungidos por uma benesse divina de poder descumprir a lei impunemente. Ávidos por seus direitos e péssimos em cumprir deveres. Isso lhe soa familiar? A velha e caquética política das regalias que está contida em tantos meandros da nossa empoeirada sociedade. Nessa tormenta que atravessamos, na qual todos estamos tentando sobreviver e manter a sanidade em meio a tantas tristezas e despautérios, ainda temos que assistir a esses seres incapazes do mínimo de empatia e civili...

Fibras

Ah! Em tantas coisas acredito Que de desalento, creio não morrer. Morrer é deixar de sentir E mesmo que silenciosamente Eu sinto  Um sentir agudo e doce Que vibra minhas fibras  Musculares e nervosas Cardíacas e orgásticas Minhas sinapses e hematoses. O que penso eu sinto O que sinto escrevo.

Demoras

Tudo me atravessa, A impossibilidade e a distância alteram as substâncias que me fazem. Eu que era urgências agora sigo saudades!! Penso nas demoras da vida... Nas entrelinhas de desvendar Os sentimentos por detrás das palavras e silêncios. Penso.... Como penso!!! Nos encontros e no tempo que não para pra esperar. Palavras me cortam e me acolhem, canções me abarcam. Devolvo em versos, sorrisos, lágrimas e algumas promessas. Quem eu serei depois que tudo isso passar? Não tenho resposta, apenas intuição, desejo, afeto e um destino.

Balões

                                                            Estava na varanda de casa, olhando a rua e pensando na vida, quando passou pela minha porta alguns balões de aniversário. Sim, o vento levava alguns balões rua acima, como se passeassem displicentemente pela tarde fresca e nublada. Junto a eles e bem curioso, ia um cachorro. Minha cachorrinha também ficou instigada, não sei se pelos balões coloridos ou pelo colega de rua.  De onde vieram os alegres enfeites? Fugiram de casa pra respirar, como todos nós gostaríamos de fazer? Resolveram seguir o vento que tocava rumo ao sul, mesmo sabendo improvável a volta pra casa? Perambulavam pelas portas das casas, pra levar um pouco de cor e espanto!?  Balões são criaturas cheias de ar. Alguém os soprou até chegarem ao máximo de sua elasticidade. De quais pulmões aqueles balões car...

Mundos

Para Robson Ebaid        Que posso fazer se suas palavras me inspiram poesia? Palavra e melodia, melodia e poesia, canções e histórias. Somos agraciados pela magia da arte! Integramos a mesma estirpe. Gente que castelos criam Do amontoado das coisas que sentem. Mundos de notas e rimas!

Arqueologia

Vasculho poemas Em busca de alento e nutrição. Não, não se trata de plágios De forma ou estilo, Que Deus me livre dessa farsa! Como um arqueólogo, que Com seus pincéis e picaretas Escava sítios em busca de vestígios passados Ando à cata de vocábulos ou Interjeições, ou neologismos, Arrebatamentos desses que furtivamente Invadem os poros e polinizam a poesia que dorme em mim. Confesso, cometo heresias em meus exemplares De poetas santificados ou não E vou deixando rascunhos Nas páginas impressas daqueles Que antes de mim jorraram suas vísceras Em palavras e rimas. De verso em verso, invento o caminho que acredito e sinto E que me salva da vida!

Letras em cor

Flores são dádivas! Encarnadas e coloridas Estão prontas e enfeitam A mesa, a rua, o pasto, o jardim, a vida. Não cabe aos poetas Tecerem a elas Palavras em demasia. As flores já são poesia!

Trabalho de parto

    Uma palavra fecunda um poema Ou silêncios, ou ideias, Presenças, canções ou risos. Um poema nasce do nada! Parir poemas é dar à luz a si mesmo! Primeiro expele-se o líquido que o protege, Depois o corpo se espreme e sai Meio torto, mal-acabado, sofrido Pedindo amparo e aparas. A placenta, fonte das letras, mastigamos pra nutrir outras palavras. O cordão é o sentimento enrolado no pescoço. Não mata. Mas judia!

Em casa

Em casa! Respiro o ar conhecido Das coisas que me traduzem. Visto minha pele Retomo meus passos  Habito meu mundo. Os ares da cidade me abraçam! Casa é mais que história É mais que imóvel É onde o coração sorri Sorrisos que a voz anuncia!

Lições de gente pequena

Ouvi de um amigo querido, no início da pandemia, ‘vamos ver o que irá sobrar de nós depois que tudo isso passar’. Depois de mais de cem dias de confinamento, a reflexão ainda ressoa em minha cabeça. O que será de nós? Como será essa tão falada nova normalidade? Como retomaremos a nossa vida de antes? Ou melhor, o que retomaremos dessa vida tão recente, mas tão distante? Acredito que não há quem esteja atravessando essa tormenta ileso. Em diferentes profundidades, os impactos estão presentes em cada um de nós. Impactos emocionais, financeiros, práticos. O distanciamento social a que nos submetemos gera consequências. Por mais que o trabalho continue em home-office e que a internet nos amenize um pouco as saudades, a impossibilidade dos encontros dói e a certeza de que todo mundo ainda existe alegra. E dói e alegra independentemente da idade. Muitas vezes vemos as crianças como alheias aos sentimentos comuns, como se não tivessem alcance de todas as emoções que pairam no ar, da casa, da...

Palavras ao vento! Publicações!

Oh! Bendito o que semeia Livros à mão cheia E manda o povo pensar! O livro, caindo n'alma É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o mar! Castro Alves ALVES, C., Espumas Flutuantes, 1870. Desde 2013, já são algumas publicações! Tiragens pequenas, modestas, porém uma maneira de reverenciar o objeto livro, que amo muito, e também deixar palavras voando em papel por aí! O registro físico emociona! Por isso já são 4 livros solo e duas participações em Antologias Femininas, lindas e fortes! Hoje compartilho aqui uma reunião dessas publicações. Ainda disponíveis para aquisição temos o livro de crônicas do Clube de Autores, O último brinde! e o livro de poesias e crônicas, Não repare a bagunça. Para entrar em contato, deixo meu endereço de e-mail: junia.paixao.mendes@gmail.com 2013 (Clube de Autores) 2014 (Ed. Literacidade) 2015 (Ed. Literacidade) 2019 (Gulliver Editora - Selo Adelante) 2019 (Páginas Editora - Antologia) 2018 (Mulherio das Letras - Antologia)