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Mostrando postagens com o rótulo poesia

Desidratação

                                      A secura do tempo, do ar, carregado de poeira e fumaça, Embaça a alegria e, entorpece a alma e o coração. A agonia estampada na ressequidão da paisagem, O fogo que alastra sem cessar A vida que se ressente e sucumbe à dor e à escassez. Hoje me faltaram esperanças. Sinto um ímpeto em escamotear imagens desidratadas. Um excesso interno de vida pra aguda penúria de umidade, Que impede os brotos e as inspirações genuínas e mornas da tarde quente. Retorcem-se as entranhas, retorcem os galhos carcomidos pelo fogo e pela luta. Faltam as forças, falta o retorno, falta o abrigo, falta a brisa do mar. O céu permanece azul, adiantando que não há previsão de chuva. O coração permanece em penumbra, aguardando o sinal pra que a luz seja acesa. O tempo corre, retorcido pela íntima percepção de clausura.

Palavras ao vento! Publicações!

Oh! Bendito o que semeia Livros à mão cheia E manda o povo pensar! O livro, caindo n'alma É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o mar! Castro Alves ALVES, C., Espumas Flutuantes, 1870. Desde 2013, já são algumas publicações! Tiragens pequenas, modestas, porém uma maneira de reverenciar o objeto livro, que amo muito, e também deixar palavras voando em papel por aí! O registro físico emociona! Por isso já são 4 livros solo e duas participações em Antologias Femininas, lindas e fortes! Hoje compartilho aqui uma reunião dessas publicações. Ainda disponíveis para aquisição temos o livro de crônicas do Clube de Autores, O último brinde! e o livro de poesias e crônicas, Não repare a bagunça. Para entrar em contato, deixo meu endereço de e-mail: junia.paixao.mendes@gmail.com 2013 (Clube de Autores) 2014 (Ed. Literacidade) 2015 (Ed. Literacidade) 2019 (Gulliver Editora - Selo Adelante) 2019 (Páginas Editora - Antologia) 2018 (Mulherio das Letras - Antologia)

Melancolia

Um pouco de frivolidade Preenche a superfície E as horas acontecem Esquecidas da verdade Um pouco de ocupação Gasta energia contida E o tempo atravessa Disfarçando a solidão Um pouco de tristeza Acalanta o coração Compelido a ser feliz Sem absoluta certeza Uma certa melancolia Cobre o vazio do dia...

Triangulação

Entre Clarice Lispector E o Big Brother, a alma dança Enleva-se o espírito Mata-se a fome de decadências De planícies abissais e Águas rasas e poluídas O oceano se faz! E como ela mesma disse “Há também a hora do lixo”

Dias

Tem dias que não preciso de música Só silêncio... Tem dias que não preciso de pernas Só canetas... Tem dias que não preciso de lágrimas Só sorrisos... Tem dias que não preciso de palavras Só olhares... Tem dias que não preciso de ombros Só colo... Tem dias que não preciso de alguém Solidão... Tem dias que não preciso Só quero...                      *** Tem dias que não quero silêncio Só música... Tem dias que não quero canetas Só pernas... Tem dias que não quero sorrisos Só lágrimas... Tem dias que não quero olhares Só palavras... Tem dias que não quero colo Só ombros... Tem dias que não quero solidão Só você... Tem dias que não quero Só preciso...

Do modo de fazer

Adélia sente suas palavras Com a caneta na mão. Eu vi. Eu também sentia assim meus versos Agora não. Agora as teclas do computador Me entendem melhor que o lápis Dizem que a informática É a mola do mundo agora. Agora eu tô acreditando Que é sim.

O poeta que me roubaram

                                                  Lá pelas tantas, madrugada alta, lamentei num poema: Vontade de ter nascido quarenta anos antes... Seríamos ao menos contemporâneos, e eu Entraria feliz numa fila de autógrafos Te roubaria uma palavra, Um abraço e uma dedicatória! _Ó tempo cruel, Me fizeste ser poeta Quando tu, meu predileto Já seguistes outro trem! *Paráfrase do Poema Três poemas que me roubaram , de Mário Quintana, Livro Baú de Espantos (1986).

Antepenúltima

Poema sólido Sílaba tônica Um gesto crônico Não faço métrica Não sei gramática Tampouco técnica Já fui ofídica Sei ser sarcástica E até telúrica Não sou romântica Às vezes acústica E sempre prática Sou sorumbática Sou alegórica Já fui enfática Pra alguns esdrúxula Pr’outros insípida Ou ainda cítrica Faço protótipos Invento arquétipos Crio hieróglifos Algoz de férula Imerge em pântano Posso ser bálsamo Provoco lágrima Eu faço mágica Talvez a última Gosto do ácido Sou gesto cálido E ainda estúpida Evito hipérboles Não tenho epígrafe Busco o desígnio Alma poética Sofre de pânico De ser patética.

Poesia sim

Outro dia estava na biblioteca de minha escola e tinha um grupo de meninos escolhendo livros para a aula de português. Eles pegavam os livros na estante, folheavam, tentando achar algum que atendesse às suas expectativas. Foi quando um deles, de uns 13 anos, pegou um livro e exclamou: _ Credo! Esse não; é só poesia!_ e rapidamente devolveu o livro a seu lugar. Aquele gesto me chamou atenção e lembrei que em sua idade e em muitas outras depois, também não me chamava atenção um livro de poesias. Sempre preferi a prosa, romances mais realistas, memórias e crônicas. Até que, de uns dois anos pra cá, descobri a beleza dos poemas e me apaixonei perdidamente pelo gênero e suas delicadezas. Entendi que para se apreciar um poema é necessário maturidade. Pois agora ando colecionando livros de poesias. A cada compra literária que faço, incluo sempre alguns títulos para degustar. E como são ricos e belos! E como enfeitam a vida! E como são sábios e contam muito sobre quem os escreve...