Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de agosto, 2011

Querer

Queria escrever um poema, que falasse de amor... Desse microcosmo que nos faz insones, nos faz dissidentes, da vida sem graça. Dessa onda hipnótica, que nos aprisiona, que nos exubera, nos faz desatentos à imperfeição! Queria escrever um poema, que falasse de amor... Desse universo inteiro, infinito, que nos insinua, e nos sugestiona, e usurpa-nos a sensatez! Desse lírico contraponto, à vida necessária e tola. Ninguém faz amor, fazemos sexo, mero complemento. O amor já nasce pronto!

Setembro

Gosto do mês de setembro, não só por ser primavera, tempo de cor e de flor, de vida nova nos ninhos, tempo de fazer amor! Gosto do mês de setembro, pois acho que é elegante, um mês bonito de se nascer, de se casar... quem sabe também de morrer! Setembro parece alegria, ternura e renovação! Queria idear uma lei, que mudasse o calendário, começaria o ano em setembro, e em agosto seria o final. Pois assim, que bom seria, junto com a primavera, junto com a passarada, tempo de dulcíssimo mel, um novo ano brotaria! E em comunhão com o universo, que faz a vida incólume germinar, poderíamos, e podemos mais uma vez nos reinventar!

Mirante de vidas

Do alto de um edifício, vê-se vários pontos de luz, várias janelas contando, que há vida pra todo lado! Do alto de algum mirante, em uma cidade qualquer, as vidas desfilam solenes, bem longe do nosso saber! E também nós que observamos, somos meros figurantes, na teia que se constrói, de nosso gentio errante! Cada janela é um sonho, em cada luz um sofrer, dentro dos sonhos há gente, e em cada gente um viver!

Conselho de Mestre

Meus poemas não datarei, conselhos de Quintana. Mas a quem os dedicarei? Aos meus filhos, meus vizinhos? Aos amigos, meus sobrinhos? Meus poemas não datarei, e os dedicarei com ardor, como em letras desenhadas, no verso de velhos retratos, àquele alguém que a eles amar, na inextinguível inexatidão, de sentimentos decifrar! Data e Dedicatória Mário Quintana Teus poemas, não os dates nunca... um poema Não pertence ao Tempo...Em seu país estranho, Se existe hora, é sempre a hora extrema Quando o anjo Azrael nos estende ao sedento Lábio o cálice inextinguível... Um poema é de sempre, Poeta: O que tu fazes hoje é o mesmo poema Que fizeste em menino, É o mesmo que, Depois que tu te fores Alguém lerá baixinho e comovidamente, A vivê-lo de novo... A esse alguém, Que talvez nem tenha ainda nascido, Dedica, pois, teus poemas. Não os dates, porém; As almas não entendem disso... De: Baú dos Espantos

Fazendo arte

Ando até meio assustada, com os rumos que as coisas vão. E não é que criou vida própria, e não me obedece mais! Quero falar de alguém, mas se ela não quiser, não adianta que não vem. Não posso escutar agora, tenho trabalho a fazer, e ela mais uma vez, deixa de obedecer. Fala o que bem entende, na hora que lhe aprouver, pelo caráter da mesma, a poesia é mesmo mulher! Que delícia mais intrigante, estou a experimentar, as mãos obedecem à ela, na hora de dedilhar. Sei lá se tem qualidade, o que ela teima em dizer, eu só sei que me esvazia a alma, e aprendo a me conhecer!

Cortesia

Para Seu Orlando Palhares A rua é José Afonso, homem de grande importância, creio eu, pra ter virado nome de via. Pela manhã ou à tardinha, com sol quente ou nuvem escassa, calor ou clima sereno. O tempo é todo dia. O ofício foi de ferreiro, ou é ainda, não sei, imagino que em outras eras, havia mais freguesia. Da vida não tenho saber, nem tampouco da família. Mas em seu gesto repousa elegância, e a figura tem galhardia. O cumprimento é gentil, sorridente. Quem sobe quem desce, merece, alguns lampejos de fidalguia. Seu Orlando, seu sempre aceno, colore meu dia!

Verdugo

Um zumbido ao redor de mim, me perturba a dor, que sofri sozinha, e degustei o fel, até a última gota. Um zumbido ao redor de mim, me retira a paz, me arranca do sonho abruptamente, e me devolve à vida. Um zumbido ao redor de mim, me conduz de volta, ao fazer sem graça, do corriqueiro trabalho braçal. Um zumbido ao redor de mim, me reduz ao tal, e qual, condição humana, simples animal. Um zumbido ao redor de mim, me faz doida, alucinada, atroz. Matar-lhe-ei sem piedade, pernilongo, noturno algoz!

Impressão

Sou do tempo do Aureliano, o Chaves, governador. Sua irmã, de nome Lourdes, com turbante na cabeça, maçãs salientes, foi minha mestra primária, lá na terceira série. O ano era setenta e cinco, o grupo escolar foi Barão, mas esse simples fato nos conta que, naquele retrato de escola, havia menos corrupção!

Bucólico

No caminho lá da roça, o tempo corre pra trás. Sem barulho, sem tumulto, sem hora pra nos cobrar. No caminho lá da roça, a vida tem seus festejos. A colheita que enche os olhos, o pasto verdinho nas águas, o ninho da maritaca, o passeio da coruja, que não vem trazer mau agouro. No caminho lá da roça, tem história pra contar. O menino que pescou, com as mãos um peixe enorme. O cavalo impertinente, que foge pra não trabalhar. O banho de cachoeira, que renova a energia. No caminho lá da roça, tem perigos da natureza. A aranha que ferroa, carrapatos e formigas. O barro escorregadio, que teima em nos derrubar. A cobra, Deus que me livre, tenho medo só de pensar! No caminho lá da roça, tem ternura e alegria. A ópera mais que perfeita, das aves, dos sapos e grilos. O comer bem preparado, no velho fogão à lenha. O pôr do sol alaranjado, o beijo apaixonado, a viola reconfortante. No caminho lá da roça, tem trabalho que não finda. Sem descanso...

Imaginárias

De vez em quando, tenho saudades, daquilo que não vivi: Mulheres muito elegantes, de espartilho e saia rodada. Namoro só da janela, cartas de amor e suspiros. Do natal caindo neve, lá nos Alpes suíços. De viver a beira-mar, da infância na fazenda, de uma noite em Paris. Certas vezes, sinto saudades, de coisas que nunca vi: Um trigal todo dourado, meu avô veterinário. De um campo de tulipas, um castelo medieval, uma nave espacial. As vezes me dói a saudade, das mulheres que nunca fui: A bailarina de ponta, rodopiando num solo. A atleta destemida, que salva seu time uma vez. A ativista política, que lutou na ditadura. A esposa e mãe perfeita, sempre disponível aos seus. A garota popular, que não conhece a timidez. Mas essas saudades são vãs, pois o que me traz a certeza, que tenho felicidade, são as lembranças que trago, do que vivi de verdade!

Lida

“Feliz aquele que transfere o que sabe, e aprende o que ensina” Coralina falou. Profissão das senhorinhas, que voltavam pra fazenda, ensinar o alfabeto. Profissão das moças ricas, daquelas de família, que com recato e linha dura, ensinavam escrever. Profissão pra lá de nobre, doutores das faculdades, prestígio e reverência, detentores do saber. Profissão para ser pobre, remediado talvez, opção pra ter emprego, ter problema, peleja que não tem fim. Sempre quis ser professora, sem fazenda, sem riqueza, nem doutora, nem pobreza, ainda hoje o quero ser, não combino com outra lida. Pois não tem dinheiro que pague, e vale pra toda uma vida, quando sem quê nem pra quê, alguém te diz bem baixinho, isso, aprendi com você! E agora pensando nisso, lembrei de um querido, saudade, que a mim chamava ô fessôra , e era chamado de mestre.

Cheiro de vida

O cheiro de lenha que exala, a quem a avista de Alá me apazigua a alma. Lembro-me bem de criança, quando inundada de paz e saudade, a esperada placa avistava: ‘CARMO DA MATA A 5 km’. Chegar era sorriso, quitanda na casa azul, melado com queijo fresco, no jardim rouba bandeira, a missa domingueira! Lembro-me também de outrora, enamorada, encantada... O mesmo cheiro no ar, a placa o tempo roubou. Chegar era paixão, serenata regada a sonhos, esquina de sorvete, frescor de cachoeiras, no jardim perdida em beijos, descobertas do amor, o futuro se desenhando. Hoje no mesmo cheiro, na mesma curva, não chego mais. Hoje eu volto!

Eu me rendo

Primeiro, nada faz muito sentido, mas o ritmo, a liberdade, a cadência, acabam por seduzir. É vicejante, é necessário, torna-se indispensável. Me entreguei, me rendi, entendi. Encontrei um mundo novo, onde faço o que quero, onde viajo no tempo, futuro, passado, Presente! Minha atual alegria, terapia, Poesia!

Espiãs

Vestidas de renda, faixa rosa, outra azul, uma loura outra morena, cresci observando-lhes os traços. As Meninas de Renoir, tinha uma cópia na minha casa. Queria ser a irmã menor, mas nem sabia se eram irmãs, e nasci a irmã maior. As Meninas de Renoir... na minha sala elas moraram, numa gravura emoldurada. E lá ficaram muitos invernos a me ver, até o tempo e os cupins, sua graça carcomer. As Meninas de Renoir...

Um dia de mãe

Maêêêêêê!!!!!!!!!!!!!!!!!! Irrompe um sonoro chamado lembrando que o dia vai começar. A mãe se levanta calma, disposta depois de uma boa noite de sono e uns momentos em que pôde ser só mulher. -Mãêêêêêeeee!!! Cadê meu uniforme? -Mãe; faz meu leite? -Mãe, eu quero pão com manteiga! -Mãêê, cadê meu tênis? -Mãê,o Joãozinho pegou meu brinquedo! -Mãêêê! Eu liguei a televisão primeiro e o Marcos mudou de canal! -Mãe, me ajuda a fazer o dever? -Mãe, o Marcos não quer me deixar brincar! -Oh mãe, é o Joãozinho que está me implicando. -Mãe, posso tomar banho depois? Deixa eu ver o desenho? A manhã transcorre entre deveres de casa, brigas e televisão. Na hora do almoço, a mãe já um pouco cansada, senta à mesa querendo uma refeição tranqüila. -Mãe, põe suco para mim? -Mãe eu quero só batata frita! -Mãe, eu não quero salada, só arroz e feijão. -Mãe, olha o Marcos me chutando, eu vou bater nele! -Mãe, põe mais suco? -Mãe, parte o bife para mim? A mãe almoça entre reclamações ...

Confissão

Deus existe e é justo. Acredito. Milagres acontecem. Observo. Religião não é de Deus, é do homem. Sinto. Orar ou rezar é a mesma coisa. Sei. E oração não é só falar, é amar, é sorrir, é agradecer, é cuidar, é viver. Generosidade é a síntese de Deus. Creio. Sua antítese é a soberba. Confesso.

Memórias

Rua Congonhas trezentos e quinze, apartamento duzentos e dois. Endereço da minha infância. Brincadeiras de casinha, que não acabavam nunca. Susis, bonecas de papel pra vestir, Nara Leão e seu circo, Chico Buarque e a banda. Parque Municipal no domingo, pra ver os cães adestrados. Escalada no Mangabeiras, descida em ponto morto, dor de barriga no tobogã, soda limonada pra refrescar. Coelho, periquito, batizado de boneca. Festa com papel prateado, vizinho que dava remédio. Tarde de cientista, saltos de bailarina, sala só pra brincar, sem sofá. Quadrinhos de papelão o galo no Mineirão. Fagner aos berros, no adolescente de cima. Aprendiz de cozinheira, quinze anos, vestibular, cara emburrada, namorado classe a. Rampa pra jogar bola, e escorregar no sabão. Quintal que virava tenda, virava palco, tinha canteiro. Rua Congonhas trezentos e quinze, apartamento duzentos e dois. Mais que um endereço, era o universo inteiro!

Superlativo

Beijos fosforescentes. Cores bruxuleantes. Amores intermitentes. Sonhos indestrutíveis. Conflitos agonizantes. Alegrias contagiantes. Prantos incontroláveis. Energia desconcertante. Amigos inseparáveis. Palavras intraduzíveis. Rompantes inigualáveis. Certezas inquestionáveis. Dúvidas inabaláveis. Segredos inatingíveis. Magia entorpecente,estridente,urgente. Fascinante, Apaixonante. Superlativo! Simplesmente, adolescente!

Digitais

Já me roubaram, relógio, carteira, palavras. Já me tiraram, ilusões, esperanças, direitos. Já me confiscaram, alegrias, oportunidades, admirações. Mas há o que é imune ao saque. Lembranças: fios de minha história. Amores: tatuagens da alma. Pensamentos: minha tradução.

Anticultura

Nosso Brasil é um país de cultura rica, mas também milionário em anticultura. Respeito o espaço alheio e o direito de expressão de qualquer um, mas algumas coisas são inexequíveis, tais como Mulher fruta, mulher filé e outras aberrações do gênero, desfilarem impunes de celebridades. Ah! Como me envergonho! Assim como me enrubesce algumas letras de música funk, alguns programas de televisão onde pseudofamosos se exibem num tosco reality show, a elevação de jogadores de futebol aos patamares de reis, imperadores, fenômenos e outros adjetivos exagerados. Tem até jogador merecedor da Medalha Machado de Assis, máxima honraria da Academia Brasileira de Letras. Durma-se com um barulho deste! É verdade, Ronaldinho Gaúcho foi agraciado com este mimo, pelos relevantes serviços prestados à nação brasileira. Machado de Assis deve ter se revirado no túmulo! Não se trata de preconceito, nem tampouco de desdém. Como disse antes, o mundo está aí pra todos e cada um cava seu espaço com as armas que...

Domingo

Um domingo comum fazer geléia de morango estender as camas preparar o almoço arrumar a cozinha recolher a roupa suja dar banho na gata! Cuidar dos meus. Só por isso. Hoje fui feliz!

Sublime

Certa vez li nalgum lugar: “O orgasmo é um estraga prazer”. Concordei Morte em vida, Maldito! Desfaz a urgência do corpo, Refaz a placidez, Devolve a sanidade da alma! Dádiva de Deus! Sublime!

Encasquetei

Tenho mania de encasquetar. Quando cismo com alguma coisa, sugo o máximo daquilo, até acabar ou enjoar, depende. Ultimamente encasquetei com a poetisa Adélia Prado. Nunca fui muito de poetar, apesar de ter tido meu caderninho de poemas adolescentes, mas a poesia não me chamava. Resolveu me buscar agora, depois de madura. Talvez esteja precisando de menos objetividade na vida, sei lá. Já li alguns livros de Adélia, vi entrevistas, li poemas na internet e me deu uma enorme vontade de conhecê-la. Quando penso que ela mora aqui do lado, bem pertinho, aí que a vontade aumenta. Quem sabe... Pode ser um projeto em curto prazo. Mas essa vontade que me bateu, meio de repente, me lembrou um fato parecido que protagonizei na minha tenra infância. Estudava em uma escola em BH chamada Instituto da Criança. Lá fazia a antiga segunda série e desde o ano anterior os livros que seguíamos eram o Barquinho Amarelo e Brinquedos da Noite, de Ieda Dias. Amava aqueles livros, ainda tenho um deles...

Um pouco de mim

Não sou Dalva nem cadente, Minha estrela tem porte médio. Vaidade, só o que basta, Pra me entender com o espelho. Não sou dada a salamaleques, Meu mundo vive ao redor. Calma? Não se enganem. Fui talhada pra ser contida, Meu vulcão nasceu extinto, De grande esfuziamento. Nasci no meio da mata, cresci na selva de pedra, vivo no meu lugar. Da morte não tenho medo, temo sim a incapacidade. Não digo tudo o que quero, não falo o que não precisa, não sou cofre de rancor. Adoro porta retrato, sou doida por chocolate, se posso, durmo até tarde. A mesmice me incomoda, não tenho religião, Admiro a retidão. Sei ser doce, quando sinto, mas sou dura de natureza, queria chorar mais fácil! Na cronologia de ser, vivo hoje o entardecer, e se me for dada a riqueza, de chegar a noite alta, com saúde e lucidez, queria ser bem velhinha, dessas que contam história e sossegam a alma!