O nome dele era Bernardo, mas poderia ser João, José, Maria ou qualquer outro. A cidade foi Três Passos, mas poderia ser qualquer outra cidadezinha do interior do Brasil ou mesmo uma grande metrópole. O sotaque era sulista, mas poderia ser nortista, nordestino ou mineiro. A tragédia é de todos e o absurdo ronda todas as famílias. O luto é nosso. Quem matou Bernardo? A madrasta? O pai? A amiga da família? Estes são os executores, mas a lista de responsáveis é mais longa e compreende todos aqueles que sabiam e se calaram, que viram e não interferiram, que ouviram e não deram crédito, que comentaram e não denunciaram. Bernardo pediu socorro. A posição social de seu pai gritou mais alto. Pobres coitados! É tão mais fácil apontar culpados sem o escudo protetor do dinheiro! Fosse Bernardo filho dos guetos e comunidades talvez tivesse tido uma chance. Mas o garoto nasceu em berço de ouro, era filho de médico conhecido, a casa que lhe negava um lar tinha piscina e carro do ano na garagem...
O mundo das letras é mágico. Traduzir sentimentos em palavras, além de tocar o outro, ensina a nos conhecer. Depois dessa descoberta, encontrei muito em mim que não era capaz de enxergar. Marquei um encontro comigo mesmo, que se renova a cada novo texto, seja prosa ou verso, público ou guardado. E assim sigo escrevendo, emitindo percepções e opiniões, desbravando esse universo infinito de possibilidades, onde as palavras desnudam a alma. Escrever hoje é minha melhor forma de existir!