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Mostrando postagens de junho, 2020

Canção do desassossego

Desassossego é meu nome, Quero o mundo que ainda dorme Dentro das minhas entranhas. Quero sem medo de querer Voo sem medo de cair E, se cair, aprendi a me levantar. Não sem chorar, não sem doer Mas... o que vale a vida sem sentir? Sentir o riso e o pranto A dor que arde no peito, e A alegria que mal cabe na alma? Sem isso, o que sobra então? Sentir sem poréns, sem entretantos, Sem qualquer senão ou engano Sentir e ser, ser e sentir! A essência que me mantém E da qual já não me aparto, Por nada nem por ninguém. Tão básico isso, tão pouco até! Do que mais carecemos para ser? Quero horizonte largo, infinito Nem que seja na próxima esquina. Não é questão de geografia, Amplidão a gente precisa é na alma! Quero o espanto perene, aliás O que quero, na verdade, É a eterna capacidade de me abismar! Assombros com tudo que vibra, Que importa, que pulsa, que ama! Tudo, palpável ou intangível, que vive. Quem quiser que me acompanhe, Nessas desimportâncias vitais E pequenezas gigantes Das quais uma ...

Passarinho

  A lua e suas fases Regem meus dias e noites Em tempos de isolamento. Crescente ela aumenta o sorriso no céu Embala os diálogos noturnos Que não cessam e Me transmutam os sentimentos Tão agudos desses dias! Desejos de liberdade me tomam. Hoje eu só queria ser passarinho!

Palavras perdidas

Um encontro no túnel do tempo, E um mar de perguntas me invadem Tantas letras perdidas no espaço... Onde se esconderam? Por onde passeavam as palavras Que sempre me habitaram? Quando foi que tranquei o cofre das sensibilidades? Por onde andou minha alma poeta? A resposta, mesmo sabida, melhor que fique onde está! Não mais me importa! O que se é, sempre encontra um jeito de florescer! Isso basta!

Entre Paredes

O outono se despede... Uma estação inteira Entre paredes. Fomos condenados ao cárcere privado Que tamanho crime cometemos? A soberba! Pagamos a pena e acumulamos saudades!

Reprises

Os dias se repetem As pessoas se repetem As histórias se repetem As notícias só pioram. Hoje queria uma estréia Uma lufada de mudanças Um recado inesperado. Tudo é entediantemente previsível!

Não!

Não! Não quero dormir O sono dos insensíveis Que atrás do próprio rabo Vivem a caminhar! Quero sim descanso justo Do trabalho e pensamentos. Mas em tempos de isolamento O corpo exaurido clama, mas A mente teimosa insiste Em tecer mil teorias! Que enfado essa gente insana!

Bilhete

Meu coração é sem dono Talvez por impor alto preço Quem despertar o encanto Precisa encarar o avesso Sou sonho e também pesadelo Mas quem de verdade, não é? Já não tenho disfarces guardados Sigo minha própria maré. Aprendi a dizer não Mas sempre procuro o sim Se não pode entender minha alma Já começa com decreto de fim Mas não tema esse bilhete Ele é reto, porém cuidadoso Andar sobre mares sabidos É melhor que sonhar duvidoso

Quarentena

Tempo regido pela fome Do corpo e da alma Medo impingido Assombros Desencontros Anarquia sentimental Encontros distantes Projetos mirabolantes. Relógios gritam A hora do jogo virar! "Quem sabe faz a hora?" Ainda está valendo a máxima? Vai passar? Quem sabe? E quando passar... Juntaremos os cacos das vidas quebradas Num mosaico de homenagens Memorial do descuidado Cruel? Talvez, realista. Quem ficou vai celebrar O recomeço do fim!

Paraíso

Diz o poeta que “o paraíso são os outros” E que o amor constrói... Pois bem, hoje acordei amando Aquele que passeou em meus sonhos, e Me construiu esse desejo tão fundo, Tão desconcertantemente urgente De mergulhar em seu abraço. Voltei a dormir Na esperança de ainda encontrá-lo Nada havia, E o dia foi todo saudade...

Haicais

Céu azul de outono E o horizonte me escapa São tempos de assombros          Brados retumbam Pelas agruras severas Uma fome espraia               Bem-me-quer eu tirei Das flores que desvesti Seus olhos me beijam                                                                    @junia paixão

Transformações em tempos de Pandemia

Em tempos de pandemia, nos preparamos para uma nova normalidade. A vida de todos foi impactada de alguma maneira, ninguém sairá ileso dessa quarentena. Aqueles que perderam algum ente querido para o vírus, que não puderam se despedir direito, vão carregar essa dor vida afora. São muitos! Aqueles que mantiveram a saúde em seu entorno, sairão mais inteiros, entretanto penso que não voltaremos mais àquela normalidade antiga. Hábitos novos, reflexões novas, novos valores. Definitivamente o mundo pós-pandemia será outro, e espero que mais atento aos apelos que se escancararam nesses dias reclusos. Uma das mais emblemáticas mensagens que recebemos foi o quão desigual ainda é o nosso país. Nossa estrutura social é cruel e impinge a um número imenso de brasileiros o lugar de invisíveis. Dramas anônimos passaram por nós, seja pela TV ou internet. Gente sem renda, sem casa, sem abrigo, sem nome. Um contingente absurdo de nossa população que não tem acesso a informação, aos cuidados...