Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de setembro, 2020

Gritos

  Um céu de primavera Manto azul noite estrelado Cobre a nós, pobres e fracos Incapazes de gritar, contra A demência dos ingratos. Furtam o ar de nossas terras Envenenam as florestas Abrem chagas insepultas E nos bufam sua cólera. Seiva profana em desatino, escorre Nas veias da terra brasilis. Quem calou a nossa voz e Arrefeceu a nossa fúria? Haverão de nos furtar as estrelas Para que trôpegos miremos Todo o mal que nos assalta?

Verdades

  Dias nublados me confortam Mesmo que o azul seja minha cor favorita As dores alheias me tocam Mesmo que não consigam diminuir as minhas. Incertezas me calam Mesmo que as palavras sempre me salvem. Horrores me entristecem Mesmo que a alegria seja minha busca diária. Deus me acompanha Mesmo que o ceticismo seja minha angústia. A gratidão me abraça Mesmo que em alguns dias não a alcance. A poesia me redime Mesmo quando as rimas me faltam. As conquistas me fortalecem Mesmo quando busco apenas o silêncio. A felicidade mora em mim Mesmo que, às vezes, a tristeza abra as portas. O impulso em realizar me traduz, Mesmo quando almejo apenas o sono. O mundo sempre me importa Mesmo quando o íntimo requer mais atenção. Sempre cultivo as flores do caminho Mesmo quando a paisagem perde a cor. Dias claros me aconchegam Mesmo quando não consigo sorrir.

Desidratação

                                      A secura do tempo, do ar, carregado de poeira e fumaça, Embaça a alegria e, entorpece a alma e o coração. A agonia estampada na ressequidão da paisagem, O fogo que alastra sem cessar A vida que se ressente e sucumbe à dor e à escassez. Hoje me faltaram esperanças. Sinto um ímpeto em escamotear imagens desidratadas. Um excesso interno de vida pra aguda penúria de umidade, Que impede os brotos e as inspirações genuínas e mornas da tarde quente. Retorcem-se as entranhas, retorcem os galhos carcomidos pelo fogo e pela luta. Faltam as forças, falta o retorno, falta o abrigo, falta a brisa do mar. O céu permanece azul, adiantando que não há previsão de chuva. O coração permanece em penumbra, aguardando o sinal pra que a luz seja acesa. O tempo corre, retorcido pela íntima percepção de clausura.

Fronteiras

  Seguimos entre riso e pranto Na busca pelo horizonte perdido. Ansiamos por um lugar sem fronteiras Físicas ou imaginárias, Onde os olhos vejam o infinito E as mãos toquem o intangível. A amplidão a que os olhos se entregam Amenizam as prisões que a vida impinge, Ou nós mesmos, na maioria dos casos, Que nos auto imputamos, Penas duras e inflexíveis. Somos algozes e vítimas Que nasceram livres, Mas nem sempre se deram conta disso. O que nos salva ou nos oprime? As chaves da paz ou do caos Estão guardadas dentro da alma. Não há respostas fora, Nem mágica capaz de nos redimir. Está tudo dentro.

Desamparo

    Muitas vezes caminho vazia De coragem e vontade.  Deixo-me quedar, Pra digerir a inércia que a tristeza traz. Tristeza sem nome, ou talvez Com tantos porquês, que me custa nomeá-los. Experimento um transbordamento, Maior que a minha mania de acreditar! Vivemos num mar de absurdos, Que me invadem todos os poros, Mesmo que tente vedá-los.  Tristeza é poeira fina, em tempos de ventania. Muitas vezes sou acometida Por agudo desamparo  E durmo a falta de um colo, Que, quando em vez, me afaguem as lágrimas. Onde estou, ser ombro é imperativo, E deixo a vontade de nada, Pra amanhã, talvez!

Rarefeito

  Os recados na parede As trancas das portas O relógio insistente. Tudo convergindo para, Em qualquer momento, Romper a razão que mantém, Uma aparente normalidade. O ar é demasiado rarefeito, Nesse espaço exíguo que me restou. Converso com o tempo, De antes, ou depois. O agora permanece estático Qual estátuas de sal. A cada ocaso, luzes acendem, e O dia findo, sepulta as histórias impedidas de ser.

Tatuagem

Gosto de marcar na pele Os gostos, paixões e amores. Não me assusta sua perene estadia Tampouco os olhos alheios. Assusta- me mais aquilo, que efêmero, Passa feito promessa E não tem intenção de pousar. Gosto de longevas histórias, Que, mesmo findas, São alimento das memórias!