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Mostrando postagens com o rótulo sentimento

Desidratação

                                      A secura do tempo, do ar, carregado de poeira e fumaça, Embaça a alegria e, entorpece a alma e o coração. A agonia estampada na ressequidão da paisagem, O fogo que alastra sem cessar A vida que se ressente e sucumbe à dor e à escassez. Hoje me faltaram esperanças. Sinto um ímpeto em escamotear imagens desidratadas. Um excesso interno de vida pra aguda penúria de umidade, Que impede os brotos e as inspirações genuínas e mornas da tarde quente. Retorcem-se as entranhas, retorcem os galhos carcomidos pelo fogo e pela luta. Faltam as forças, falta o retorno, falta o abrigo, falta a brisa do mar. O céu permanece azul, adiantando que não há previsão de chuva. O coração permanece em penumbra, aguardando o sinal pra que a luz seja acesa. O tempo corre, retorcido pela íntima percepção de clausura.

Quarteto Fantástico

                                               Inaugurei uma geração de mulheres na família. Sou a mais velha de quatro irmãs. Um mundo feminino que me moldou e onde primeiro aprendi sentimentos de sororidade. Um universo de vivências comuns, mas individuais, que me ensinou a seguir acolhendo e tocando os espaços alheios com delicadeza e respeito (nem sempre com serenidade, admito), mesmo que tenhamos tido momentos de tensão, o que é inevitável. Irmãos são testemunhas de nossa própria história e manter esse afeto intocado na vida adulta, demanda exercícios de alteridade e empatia, para além da consanguinidade. Seguimos unidas, acolhedoras umas das outras, formando uma rede protetiva e um colo incondicional. Uma benção! Com duas delas, dividi amor e ódio enquanto crescíamos e buscávamos a nossa individualidade em meio a crises adolescentes, descobertas do mundo, assombr...

Lições de gente pequena

Ouvi de um amigo querido, no início da pandemia, ‘vamos ver o que irá sobrar de nós depois que tudo isso passar’. Depois de mais de cem dias de confinamento, a reflexão ainda ressoa em minha cabeça. O que será de nós? Como será essa tão falada nova normalidade? Como retomaremos a nossa vida de antes? Ou melhor, o que retomaremos dessa vida tão recente, mas tão distante? Acredito que não há quem esteja atravessando essa tormenta ileso. Em diferentes profundidades, os impactos estão presentes em cada um de nós. Impactos emocionais, financeiros, práticos. O distanciamento social a que nos submetemos gera consequências. Por mais que o trabalho continue em home-office e que a internet nos amenize um pouco as saudades, a impossibilidade dos encontros dói e a certeza de que todo mundo ainda existe alegra. E dói e alegra independentemente da idade. Muitas vezes vemos as crianças como alheias aos sentimentos comuns, como se não tivessem alcance de todas as emoções que pairam no ar, da casa, da...

Palavras ao vento! Publicações!

Oh! Bendito o que semeia Livros à mão cheia E manda o povo pensar! O livro, caindo n'alma É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o mar! Castro Alves ALVES, C., Espumas Flutuantes, 1870. Desde 2013, já são algumas publicações! Tiragens pequenas, modestas, porém uma maneira de reverenciar o objeto livro, que amo muito, e também deixar palavras voando em papel por aí! O registro físico emociona! Por isso já são 4 livros solo e duas participações em Antologias Femininas, lindas e fortes! Hoje compartilho aqui uma reunião dessas publicações. Ainda disponíveis para aquisição temos o livro de crônicas do Clube de Autores, O último brinde! e o livro de poesias e crônicas, Não repare a bagunça. Para entrar em contato, deixo meu endereço de e-mail: junia.paixao.mendes@gmail.com 2013 (Clube de Autores) 2014 (Ed. Literacidade) 2015 (Ed. Literacidade) 2019 (Gulliver Editora - Selo Adelante) 2019 (Páginas Editora - Antologia) 2018 (Mulherio das Letras - Antologia)

Melancolia

Um pouco de frivolidade Preenche a superfície E as horas acontecem Esquecidas da verdade Um pouco de ocupação Gasta energia contida E o tempo atravessa Disfarçando a solidão Um pouco de tristeza Acalanta o coração Compelido a ser feliz Sem absoluta certeza Uma certa melancolia Cobre o vazio do dia...

Triangulação

Entre Clarice Lispector E o Big Brother, a alma dança Enleva-se o espírito Mata-se a fome de decadências De planícies abissais e Águas rasas e poluídas O oceano se faz! E como ela mesma disse “Há também a hora do lixo”

Dias

Tem dias que não preciso de música Só silêncio... Tem dias que não preciso de pernas Só canetas... Tem dias que não preciso de lágrimas Só sorrisos... Tem dias que não preciso de palavras Só olhares... Tem dias que não preciso de ombros Só colo... Tem dias que não preciso de alguém Solidão... Tem dias que não preciso Só quero...                      *** Tem dias que não quero silêncio Só música... Tem dias que não quero canetas Só pernas... Tem dias que não quero sorrisos Só lágrimas... Tem dias que não quero olhares Só palavras... Tem dias que não quero colo Só ombros... Tem dias que não quero solidão Só você... Tem dias que não quero Só preciso...

O poeta que me roubaram

                                                  Lá pelas tantas, madrugada alta, lamentei num poema: Vontade de ter nascido quarenta anos antes... Seríamos ao menos contemporâneos, e eu Entraria feliz numa fila de autógrafos Te roubaria uma palavra, Um abraço e uma dedicatória! _Ó tempo cruel, Me fizeste ser poeta Quando tu, meu predileto Já seguistes outro trem! *Paráfrase do Poema Três poemas que me roubaram , de Mário Quintana, Livro Baú de Espantos (1986).