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Lembranças doces

 


Lembranças! Quem não as têm? Boas e ruins fazem parte do que somos. Mas, em tempos de distanciamento, elas parecem mais vivas e acalmam nossas saudades e vontades! E cultivar, principalmente as boas recordações, pode ser uma boa estratégia para serenar nossos corações apreensivos com tanta incerteza. Claro que de incertezas, nossas vidas vivem cheias, aliás, ouso afirmar que, é só o que temos. Porém, quando a vida é assaltada por inusitados acontecimentos, e nos coloca em risco, um conforto é nos agarrar às vivências que nos fizeram felizes.

Pois bem, hoje ouvi um podcast que me fez entrar em um túnel do tempo e relembrar momentos idos de infância e adolescência. Ouvindo o áudio da escritora Cris Guerra e suas irmãs, nesse podcast que ela criou para celebrar os seus 50 anos, me veio à memória muitas passagens com as minhas, que contam um pouco de nossa origem e do modo de vida naquele tempo de infância. E além disso, tomei consciência do quanto essas vivências nos marcam, a ponto de carregarmos sensações por toda uma vida, pois, até hoje considero comer leite condensado puro, direto da embalagem, uma pequena transgressão!

Leite condensado!! Qual criança nunca quis comer essa iguaria! Matéria-prima para os doces de aniversário, ou tortas para sobremesas especiais, o produto puro é uma opção para aqueles dias em que a vontade de comer doce aperta. Hoje encontramos uma oferta variada nos mercados, diversidade em marcas, embalagens e tamanhos. Já tem até embalagens individuais, muito vendidas nas portas das escolas. Mas naquela época, era somente o Leite Moça em latas. Fazia parte da despensa de casa, porém em pouca quantidade e a salvo da nossa gula, não tínhamos autorização para usá-las. Para conseguirmos abrir uma lata, com um furinho de cada lado, e comermos o doce, muitas vezes misturado com muito achocolatado, não era fácil e dependia de estratégias psicológicas de convencimento. Tudo combinado entre nós, meninas, que nos revezávamos nos pedidos.

Nossos pais tinham o hábito de saírem em alguns sábados, para encontrar amigos, jantar fora, ou coisas do tipo. Ficávamos sozinhas em casa e era nossa noite de liberdade também! Esperávamos eles se arrumarem, deixarem as recomendações de sempre (não abrir a porta para estranhos, não dormir tarde, etc), e quando desciam as escadas e chegavam na portaria do prédio uma de nós pegava o interfone e chamava: Pai, Mãe! Deixa abrir uma lata de leite condensado?? Doidos para sair, sempre consentiam! Claro que depois de algumas vezes, eles já deviam ficar esperando lá embaixo o pedido! Mas, sempre nos achávamos exímias estrategistas! Passávamos a noite comendo alegremente aquela mistura, dividida gota a gota entre todas, e víamos TV até a hora em que o barulho do carro chegando, nos fazia correr pra cama e fingir que estávamos dormindo! Depois de crescidas, meu pai confessou que sempre soube que dormíamos tarde aqueles sábados, pois a temperatura da TV, que ele conferia quando chegava, não nos deixava mentir!!

Doces lembranças!


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