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Fala, Yoani!

Texto publicado no Jornal O Tempo, em 03/03/2013






Yoani Sánchez, cubana, 37 anos, casada, filóloga e moradora de Havana. Confesso que até pouco tempo esse nome não me chamava atenção, apesar de já ter conhecimento de seu trabalho contra a repressão na ilha de Fidel através de seu blog, Geração Y. Mas isso mudou com a sua vinda ao Brasil após as mudanças implantadas em Cuba, que, diga-se de passagem, subtraía o universal direito de seus cidadãos de ir e vir, e que agora num lapso de sensatez, ou apenas num sinal claro de que o nocaute se aproxima, decidiu liberar as viagens ao exterior de seus compatriotas.

Yoani tem aparência sofrida. Sua imagem é frágil, desprovida de vaidades. Mas sua fragilidade se desmaterializa no momento em que ela fala. Aliás, foi sua fala incisiva e segura e seu discurso corajoso, que a fizeram conhecida mundo afora. Ela denuncia a falta de liberdade em seu país, ela denuncia o abuso de poder exercido por seus governantes, ela denuncia a violação de direitos humanos em sua nação. Mas aqui, em muitos momentos ela não pôde falar. Sua voz foi abafada por gritos e protestos radicais.

E quem eram aqueles que protestavam? Quem eram aqueles brasileiros que impuseram o silêncio a uma visitante, exercendo o livre direito que todos temos de nos manifestar? Eles carregavam cartazes de “Viva Cuba!”, “Viva a revolução Cubana!”. No mínimo um paradoxo monumental! Será que alguns daqueles manifestantes viveram, mesmo em fantasia, o peso de um regime ditatorial? Será que conhecem a fundo os bastidores da Revolução? Será, ao menos, que conhecem bem a luta brasileira contra a ditadura militar, que pintou de cinza parte de nossa história? Ora façam-me rir! Simplesmente patético! Hipocrisia pura!

Sempre há uma aura de romantismo que envolve os grandes revolucionários! E sempre haverá aqueles que surfam em ondas equivocadas, embalados por uma visão romanceada das grandes revoluções. Vá viver o inferno de não poder ter opinião, de não ter acesso ao mundo, de ver e viver abusos de poder, de ter que enfrentar a morte e a prisão de pessoas queridas pelo simples crime de discordar. Aí sim, depois de vivenciar tudo isso, se mantiver suas apreciações, vão debater ideias. Nunca impingir julgamentos!

Yoani Sánchez, gentilmente afirmou: “Oxalá em Cuba pudéssemos fazer o mesmo!”. Não Yoani, em Cuba vocês tem que lutar pelo que realmente importa que é a liberdade de seu povo e por outros direitos tão básicos como discordar, não percam tempo com protestos vãos. Perdoe-nos o mau jeito e a tolice de uma minoria. Desejo ver em breve notícias de dias mais leves em seu amado país, e que você possa realmente não perder jamais a ternura! Boa viagem!

Comentários

  1. É isso aí, Junia. Sábias palavras e ainda bem que você pôde ser este elo de comunicação. muitos realmente não sabem o que fazem... é um dó.Parabéns pelo texto. Sol

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