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Enquadrados



Tenho muitas reservas quando o assunto é padrão de beleza. Aliás, padrões não me convencem muito, tenho alma revolucionária, apesar de nunca ter sido rebelde de carteirinha. Mas, voltando aos modelos de beleza, que tanto infernizam a vida das pessoas desenquadradas, não os levo a sério. Nunca fui afeita a dietas e confesso (não orgulhosa) ser uma sedentária convicta. Mesmo com uns quilinhos dispensáveis, insisto em me achar em forma, até que as roupas, em protesto, começam a me incomodar. Tenho fases mais enxutas, outras mais generosas, mas, graças à genética talvez, consigo manter uma média razoável! E a vida segue, sem neuroses...

Concordo que atividade física faz bem pra saúde, e já estou me convencendo da necessidade de por o corpo em movimento. Concordo também que em alguns casos, um upgrade no visual se faz necessário e ajuda a fazer as pazes com o espelho. Mas abaixo os exageros! Levanto bandeira e abomino sacrifícios e riscos à saúde, em nome de um padrão de beleza criado por não sei quem e que insistem em nos convencer que é o melhor. Melhor pra quem, se nasci com cachinhos e só é bonito quem tem cabelo escorrido? Se cresci até um metro e sessenta e o top é mais de um e setenta? Se há uma coisa que a espécie humana não tem é padrão. Fique uma hora observando as pessoas numa rua e se certificará disso. Tem gente pra todo gosto!

E graças a Deus que assim é. Já pensou um exército de pessoas iguais, com o mesmo nariz, a mesma estatura, a mesma cor de cabelo? Pura monotonia! Somos nesse planeta, sete bilhões de diferentes, e tem um monte de loucos se acabando pra parecerem iguais. No mínimo é uma desconsideração com o trabalho da natureza, que se esforça pra não repetir padrões genéticos, numa engenharia divina e perfeita, e garantir assim a sobrevivência da espécie. O sucesso e a harmonia estão na diversidade, em todos os lugares e situações naturais. Por que então nós, seres humanos e pobres mortais, nos descabelamos para subvertermos essa ordem já comprovadamente exitosa, há pelo menos três bilhões de anos?

Vai saber! O fato é que os cirurgiões plásticos estão fazendo fortuna, os médicos recém-formados e muitos estudantes estão de olho na medicina estética, as adolescentes usam uniforme em festas e baladas (incluindo roupas, cabelo e maquiagem), os garotos se esfolam na academia pra parecer o Rambo, a indústria cosmética nunca faturou tanto! Temos que ter barriga de tanquinho, barriga negativa, seios turbinados, bíceps salientes, lábios volumosos, e um monte de outras exigências dos famigerados padrões de beleza. E detalhe, todas as mudanças e metas alcançadas são devidamente divulgadas nas redes sociais, pois não basta ser feliz no seu próprio espelho, tem que fazer parte do seleto grupo dos que alcançaram a equidade na aparência!

Pois bem, exageros todos à parte, fico com a frase clichê de personagem de TV: Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa! E vamos aproveitando a diversidade que ainda existe, pois no passo que a evolução genética e tecnológica vai e que o bom senso estanca, o exército de iguais, literalmente falando,já vistos em ficção científica, não demora ser realidade. E enfim seremos felizes para sempre... Será?

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