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Finados




Dia de finados. Dia de lembrar nossos mortos, ir ao cemitério, comprar flores para nossos falecidos, certo? Nem sempre. Conheço pessoas que vão sempre lá conversar com seus mortos, sem datas especiais. Conheço outras que após perderem pessoas muito queridas, nunca mais puseram seus pés num cemitério. Outras ainda que, num ritual herdado e inquestionável, vão ao cemitério em dias marcados, todas as semanas, faça chuva ou sol. Há de se respeitar as decisões.

Particularmente os cemitérios não me dizem muita coisa, nem aqueles que guardam os meus mortos, que, com as bênçãos de Deus, são poucos.Não me causa incômodo, tampouco medo. Não consigo vislumbrar naqueles jazigos sóbrios ou em jardins bem cuidados, a última morada de quem quer que seja. São lugares que abrigam aquilo que acaba, que depois do último suspiro, ou da consciência perdida, já são desnecessários e inúteis. Falo sempre com os meus e aproveito para deixar escrito, que tenho a vontade de ser cremada. Acabar de uma única vez, com um corpo que não precisa mais existir. Se der ótimo, mas se não for possível, tudo bem, prometo não reclamar!

Escrevendo agora esse texto, lembrei-me de uma visita ao cemitério feita na infância. Uma vizinha, daquelas onde as crianças se sentem em casa, resolveu levar todos para passear. Eram na época três dela e três lá de casa. Pois bem, fomos todos ao cemitério! Não me recordo o motivo que nos levou a um lugar tão insólito para entreter crianças, só me lembro de que andamos muito e a diversão do dia foi fazer contas e descobrir a idade dos falecidos. Chegamos em casa exaustos e felizes da vida. Foi um programa, ao menos para nós, tranquilo e normal.

Acredito que nossos mortos, guardamos dentro do coração e das lembranças. E, geralmente, as lembranças que ficam são as boas, que nos fizeram felizes. Os mortos perdem seus defeitos, pois perdem a condição material. Ficam pra sempre em nossa memória o lado bom, que nos conforta a alma e acalma a dor da perda e a saudade até dos problemas e dos defeitos. Mas nada disso está lá no cemitério, penso eu; nenhuma emoção, nenhuma lembrança boa ou má, nenhum sinal daquela pessoa que fez parte de nossa vida. Os túmulos guardam apenas restos e servem para dar dignidade e assepsia ao desaparecimento.

Dia de finados. Pra quem acha que deve, dia de levar flores aos seus mortos, visita-los em suas derradeiras moradas e cumprir formalidades tradicionais. Talvez dia de rezar (ou orar) por aqueles que se foram pra que achem paz e evolução espiritual. Talvez ainda, dia de rezar (ou orar) por aqueles que ficaram e que precisam enfrentar a vida sem companhias importantes e necessárias.

Mas ainda penso que eles não estão lá e que, para aplacarmos a dor da saudade ou prestar reverências, basta olharmos pra dentro de nós, qualquer dia, qualquer hora. Elevar nossos pensamentos ao plano etéreo e desejar profundamente que estejam bem. Simples assim! Portanto, familiares e amigos, caso façam questão de visitas quando partirem dessa vida, deixem avisado, ok?

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