Pular para o conteúdo principal

Naquele dia...



Naquele dia eu ainda não tinha nascido, mas carrego comigo, desde quando não sei, lembranças de um tempo que não vivi. Naquele tempo, de romantismos e elegâncias, de efervescências culturais e de disparidades sociais, foi quando o súbito aconteceu. O que sei aprendi em livros, revistas, jornais. O que sinto vivi, ou apreendi de um tempo triste e sem cor. Meu pai contava casos, os professores contavam histórias.

Hoje, 50 anos depois, tentam amenizar o que houve. Relativizar seus abusos, encobrir seus erros de todos os lados, enaltecer os “heróis” de ontem que tristemente são os abusadores de hoje. Ainda hoje escuto vez ou outra dizerem: naquele tempo o país era bom, tinha ordem, tinha respeito. E toda vez que escuto isso, um arrepio frio me corre a espinha. Julgo sem piedade a ignorância do discurso, seja de quem for. Pergunte sobre a ordem pras famílias inteiras que só viveram terror! Pergunte sobre respeito àqueles que foram calados com ódio e escárnio! Pergunte sobre bondade aos que viveram torturados de corpo e alma!

Minha alma revolucionária ainda treme de pavor à menor menção desses anos amargos. Minha família sempre diz que, fosse eu mais que uma simples criança, iria pra resistência, talvez armada. Sou pacata de natureza, mas não pisem nos meus dogmas sagrados que viro bicho. Já virei bicho umas vezes e não gostei do que vi. Talvez hoje, depois de 50 anos, dos quais 25 encarcerados e outros 25 pelejando, possamos ler nas entrelinhas da dor menos visceralmente. Talvez hoje a razão possa suplantar a comoção que arrebatou nosso lugar, mas duvido. E duvido por mim mesma, que não sofri o mal consciente, mas colho seus efeitos em meu estômago, que a cada leitura ou documentário, se contorce nauseabundo.

Vivi sim, e com pueril alegria, a reviravolta, a retomada da liberdade, a promessa de democracia que (cruelmente) teima em não se cumprir completamente, sem senões e hiatos apavorantes. Juntei-me ao exército na rua, com uma euforia quase esquizofrênica, pois naqueles dias me sentia da resistência, fantasiava uma luta coesa, uma brigada de iguais contra o fascismo do medo e da intolerância. Sentia-me guerrilheira, armada de discurso inflamado, adesivos e bottons. Era invencível, embriagada de esperança e de pertinência. Tinha vinte anos, um pouco menos, um pouco mais, mas cumpria naquele tempo (83 – 89) a saudade que sentia de quando eu ainda nem existia (64).

O dia 1º de abril de 1964 (e todos os outros que se seguiram) não é para ser comemorado, mas não deve jamais ser esquecido. Não merece festividades, tampouco menções honrosas ou aproveitamentos escusos daqueles que jogaram suas histórias passadas no lixo comum do presente. Mas temos que contar essa história, incessantemente e primordialmente aos mais jovens, que sofrem de uma alienação cívica galopante e preocupante, pois ainda somos enormemente frágeis e passíveis de engodos.

Carecemos agora, nesse exato momento, de nomes em quem confiar. Não temos sequer um ‘pecador mais palatável’, como disse recentemente a poeta Adélia Prado, pra nos salvar. Salvemos a nós mesmos, aos nossos meninos de agora, contando essa triste história. O final feliz que sonhei aos vinte anos, e que muitos sonharam e sonham há 50 anos, ainda não foi. O que preciso acreditar é que ainda será.

Comentários

  1. Cara Junia.
    Eu convivi, SEM PARTICIPAR, dos acontecimentos de 1964. É preciso, antes de tudo e sempre, ouvir e analisar ambos os lados. Excessos houveram, é certo. Porem, minha jovem, se não acontecesse as providencias enérgicas das Forças Armadas naqueles tempos, com certeza poderíamos ser hoje iguais a uma Cuba ou Coréia do Norte. Sendo assim não teríamos (entre outros tantos direitos) a liberdade de expressar nossos sentimentos e entendimentos. A democracia de hoje é que permite a você divulgar esse artigo na mídia, nos jornais, nas ruas. Houve sacrifício, sim, porem temos liberdade de expressão, agora.
    Se aqueles que divulgam hoje o sofrimento de ontem tivessem obtido êxito, não seriam eles e seus companheiros novos Lenin´s ou Castro´s?
    Repito, estude e ouça os dois lados com isenção de ânimos, a história verdadeira desde o principio e se ainda mantiver a sua opinião, é a democracia de hoje que permite.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Leitores, deixem seus comentários e impressões:

Postagens mais visitadas deste blog

Quem somos nós?

  O que te move na vida? O que faz com que você se levante todos os dias? Trabalho? Família? Sonhos? Muitas vezes me pego pensando sobre o sentido de existir. Aliás, esse pensamento é uma de minhas obsessões e hoje me deparei com um poema da autora Michaela Schmaedel, que me trouxe novamente essa reflexão “ Tem de ter algo/mais nessa vida/do que trabalhar/doze horas por dia/depois sentar-se no/beiral do abismo e/descansar do cansaço extremo ”. Estamos inseridos em um tempo no qual valemos pelo que produzimos. Somos identificados pela nossa atividade profissional. Em qualquer espaço que precisamos nos apresentar, falamos nosso nome e o que fazemos para pagar os boletos. No mundo capitalista só existimos se contribuímos para a máquina de moer gente funcionar e à medida que diminuímos nossa produção, estaremos prontos para o descarte. Se somente a produção importa, quem somos nós para além de nossas atividades profissionais? O que sobra de cada um de nós quando não podemos mais ...

“Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”

Outro dia me deparei com essa frase de Freud: ‘Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?’, e esta me atingiu feito um raio e me fez pensar e refletir sobre a mania que temos de nos queixar apenas. De tudo e de todos. Em casa, no trabalho, no lazer. Jogamos ao vento clamores e queixumes, muitas vezes tolos, e nos apiedamos de nós mesmos, pagando de vítimas indefesas, não raro, de nossas próprias escolhas. Reclamar é mais fácil que tomar a decisão de mudar o que nos incomoda. Que atire a primeira pedra quem nunca se comportou assim! Eu não ouso. Se olharmos bem lá no fundo, excetuando-se catástrofes naturais ou acasos trágicos, todas as desordens que vivemos são apenas consequências daquilo que fizemos antes, conscientes ou nem tanto, esperando ou não esses resultados. “A toda ação corresponde uma reação de igual (ou maior) intensidade e sentido contrário”, Terceira lei de Newton, lembra? Pois bem, a vida segue essa e outras leis e estamos todos a mercê d...

Comprometa-se!

Comprometimento! Você tem visto isso por aí? Talvez seja essa a palavra e atitude que anda em falta nesses tempos conturbados que estamos vivendo. Tempo em que todo mundo tem opinião formada sobre tudo, as redes sociais trazem milhares de donos da verdade e que a palavra de ordem é seguir. Seguir no instagram, no snap, no facebook. E seguir significa comprar o que o outro ‘vende’, acompanhar, engolir, copiar. Mas e o comprometimento? Quantos realmente se comprometem com aquilo que acreditam e até mesmo com aquilo que seguem, seja lá o que for? Andamos carentes de lideranças genuínas. Andamos carentes de conteúdo. Andamos carentes de verdades ‘verdadeiras’, de comportamentos dignos de serem exemplos. Andamos órfãos de heróis e de ídolos que realmente possam agregar valores em nossas vidas. Muito pouco de muita coisa, pouca profundidade. Nosso mundo anda raso e líquido.  E não há comprometimento se ficamos apenas na superfície. Pra nos comprometermos com alguma ideia...