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Nuvem cinza



Quarta-feira de cinzas devia ser decretada o primeiro dia do novo ano. Vamos oficializar a indolência imputada ao povo brasileiro! Não é lugar comum dizer que o ano só começa depois do carnaval? Então vamos deixar de hipocrisia e sacramentar o dito popular. Feliz ano novo pessoal! O carnaval acabou e todo mundo brincou como se não houvesse amanhã. Agora é hora de recomeçar! Poderiam pra não ficar muito ruim e a despeito do feriado ser uma festa móvel, decretar também a primeira semana de fevereiro como carnaval, daí saberemos sempre quando o ano toma assento e começa pra valer! Os prejuízos certamente seriam menores.

Brincadeiras à parte, estamos em março e a sensação que tenho é que ainda estamos vivendo o ano passado. Começamos o ano novo com energia velha, gasta, densa e cansada. E essa não é uma percepção pessoal, um mero olhar nublado sobre a vida; várias pessoas me descreveram a mesma sensação, o que pelo menos me salva da crucificação solitária pelos felizes de plantão. Mas quem sabe agora, passada a folia, possamos sacudir a poeira e dar a volta por cima? Oxalá seja possível, mas confesso andar descrente com esse nosso país de prioridades tão subvertidas e de valores tão rasos.

Venho tentando, apesar de minha atual impaciência, não engrossar o bloco dos que reclamam de tudo o tempo todo. Mas confesso estar perdendo meu otimismo incorrigível e ando sofrendo com isso, a desesperança me apavora. Gostava de pensar que, apesar dos pesares, tudo ia melhorar e teríamos dias mais amenos. Estamos aprendendo, ponderava! Pois bem, os pesares estão pesando e durando muito, pois são recorrentes e cada vez mais ousados e se fôssemos reais aprendizes já teríamos nos aperfeiçoado! O mundo anda louco, o bom senso anda pouco e o coro, que deveria gritar contra tudo isso, anda rouco ou equivocado! Só falta saber se tal rouquidão é pela insistência do alerta, ou pela falta de vozes no combate!

Creio ser pela dissidência de muitos soldados que, fatigados de gritar em vão, foram cuidar da própria vida, que o mar não está pra peixe. Ou pela falta de luz, que assombra grande parte desse exército verde amarelo, seduzidos por meras bolsas e outras migalhas amealhadas à nossas custas. O fato é que, mal saímos de um circo anual e alienante, nos acenam com a proximidade de um espetáculo de proporções sem precedentes e com a possibilidade de sairmos dele hexacampeões, pra glória dos candidatos (teremos eleições também, alguém se lembra?) que serão pais e mães do caneco e responsáveis pela euforia de seu povo! 2014 promete!

Pois então, só nos resta encarar os fatos e rezar. Rezar para que, lá pra novembro quem sabe, ao voltarmos pra vida real e normal, não sermos surpreendidos com armadilhas cruéis e sabotadoras, por que caso ninguém tenha se tocado, alguém vai ter que pagar essa conta. Algum palpite? Feliz ano novo!

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